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Lembranças

O deslumbramento, o sonho, a sedução, a celebração...

Lembranças

O deslumbramento, o sonho, a sedução, a celebração...

« Era um fim de tarde calmo, de Setembro, e eu estava naquele quarto, modesto, de casa de pescadores do Mindelo, olhando bem nos olhos aquela jovem e recebendo, em cheio, toda a força da pergunta: diga-me, quanto tempo me falta para morrer
Alguns meses antes, numa biopsia do fémur direito, eu tinha feito um diagnóstico de sarcoma de Ewing e fora-lhe proposto amputar a perna direita por desarticulação coso femural.

Maria C. tinha 17 anos e a beleza longilínea e esquiva que marcava uma antiquíssima origem fenícia, tribalmente conservada nas famílias de pescadores de entre Lima e Mondego. Começara a dançar no grupo folclórico e agora, quase a acabar o Liceu, sonhava ser bailarina, correr em pontas num palco iluminado, rodar como um esguio pião enlouquecido e cair, amparada, nos braços robustos do seu par.
É verdade. Maria C., naquele quarto modesto de uma casa humilde de pescadores, tinha um magnífico sonho de adolescente – ser bailarina.

De certo que ela não sabia porquê. Sabia só que uma força interior a fazia imaginar o seu corpo a mover-se ao sabor de um ritmo desconhecido mas intuído, oculto mas descoberto num recôndito pequeno espaçoda sua auto-consciência. Quero com isto dizer que Maria C. não exibia uma superficial escolha, extraída, de leve, dos meios de comunicação social e do seu oportunismo fácil, para a sedução dos jovens ainda permeáveis. Não. Maria C. vivia uma vocação, ancorada tão fundo no seu eu que ela não conhecia, sequer, as suas invisíveis raízes.

Dou comigo a pensar que esta escondida secreta origem da força que chamava aquele corpo para o ritmos e a dança, tem de resultar da articulação sucessiva da expressão das informações génicas com as quais se constrói um corpo humano. Outras informações génicas, expressam-se e constroem, por exemplo, um corpo que irá voar, como o corpo da ave que cruza os céus, desafiando a força da gravidade que a todos atrai para o solo.

O corpo do homem, esse, não voa. Mesmo quando se julga asa, na imaginação poética, é “asa que se elançou, mas não voou” (Mário de Sá Carneiro). Mas é o genoma que, ao responder, diferentemente, aos estímulos epigenéticos, logo desde que o corpo humano é uma ciência isolada, escondida nas dobras das franjas tubares de uma mulher, é o genoma, dizía, que constrói os corpos humanos, todos diferentes e, até, com psicologias diversas. O imortal Cervantes, interiorizou que um longilíneo asténico, é um sonhador triste, e um pícnico, bem arredondado, é pelo contrário, um pragmático bem disposto.

Um corpo, construído genéticamente para que nele se manifeste o desejo, inconsciente, de voar, sem asas perecíveis, como no subtíl mito helénico, mas antes em obdiência ao ritmo musical da dança, esse corpo estará a exprimir uma pura informação, que chegou por meio de uma qualquer via antiga, passada de geração em geração, usando uma “genética” ainda oculta aos nossos olhos científicos; informação que se revelava na dança ritual das jovens virgens que, Semitas, Gregos, Romanos, Celtas, celebravam em homenagem à Vida, ao Amor e à Morte. E que hoje é só a estética do movimento expressivo.

Não estará aqui o inconsciente de Jung? Penso que sim, mas não vou agora avançar mais neste argumento.

Maria C. tinha recebido um corpo assim, um corpo ligado ao ritmo, com uma estrutura neuro-muscular obdiente a uma secreta vontade de voar, de deslizar como se não tivesse peso e até, um dia de se debruçar sobre o solo, morta. Como um Cisne que não pode mais voar e, portanto, não pode mais viver. »

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DANIEL SERRÃO

IN Cadernos de Bioética: 42/Dezembro de 2006

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